Aniversário da Elza Soares | Deus há de ser há 81 anos

A cantora brasileira Elza Soares completa 81 anos de idade, hoje (23). Para homenageá-la, precisamos falar da trajetória de vida de uma mulher símbolo da luta por igualdade de gênero e raça no Brasil. Tida como guerreira e sobrevivente, a grande representante da MPB passou por muitas dificuldades ao longo do tempo, mas se mantém firme com mais de 50 anos de carreira.

Mas definitivamente não foi fácil para a artista. Nascida em Moça Bonita, na zona oeste do Rio de Janeiro, aos 12 anos, Elza já havia se casado pela primeira vez. Obrigada pelo pai, ela consolidou a união com Lourdes Antônio Soares, o que lhe rendeu o sobrenome e também uma gravidez precoce um ano depois.

Com muita dificuldade, a ícone da música brasileira fugia das tarefas na favela para cantar. Desde cedo já se sabia que a voz rouca impressionava, mas ela passava por dificuldades pela perda de direitos básicos. Por isso, ainda jovem, a aniversariante resolveu participar do programa de calouros da Rádio Tupi, de Ary Barroso. Questionada por ele com a pergunta intrigante “de que planeta você veio?”, Elza não hesitou em responder “do planeta fome”.

Homenagem de Elza da Conceição Soares à mãe, Rosa Maria da Conceição, ainda muito jovens (Foto: reprodução Instagram/ Rede Globo/ Arquivo Pessoal)

 

E não à toa que, aos 21, a carioca perdeu o marido e os dois filhos que teve com ele por causa da desnutrição e da tuberculose. Depois disso, já com quatro filhos, as tragédias não a deixaram. A partir daí já pensamos onde que essa menina iria. Foram tantos empecilhos… Sem contar as diversas reviravoltas que viveu, como a do sequestro da filha Dilma. A criança foi raptada por um casal que se fingiu confiável e só apareceu anos depois, já adulta.

Elza Soares foi considerada a cantora brasileira do milênio pela BBC de Londres, em 1999. O racismo, machismo, a violência, a depressão e a pobreza não a impediram de ser uma perfomista inacreditável. O maior sucesso da cantora veio em 60, com a canção “Se acaso você chegasse”.  Apesar das inúmeras participações e músicas autorais, a vanguardista só gravou o primeiro álbum inédito em 2015, quando acabou de completar cinco décadas de carreira.

 

“A mulher do fim do mundo” faz jus à trajetória dela. Mas é claro que antes disso, Elza incomodou muita gente. A sambista e amante da Bossa Nova foi criticada na época da Copa de 1962 pela relação com o jogador brasileiro Mané Garrincha. Neste período, a mídia a tratou como uma vilã que acabara com o casamento do atleta. Passado um ano, a revolucionária lançou “Eu sou a outra” e gerou Garrinchinha, o filho dos dois.

E as retaliações não pararam aí. O casal teve que ser exilado para a Itália, na época da Ditadura Militar. Lá eles se aproximaram de Chico Buarque e Marieta Severo. Até hoje, Elza declara que os amigos foram fundamentais para ela. Mas nem tudo foram flores, pelo contrário, este período foi bastante conturbado. Mané tinha um problema sério de alcoolismo e a violentou por muitas vezes.

Elza e Garrincha na Itália (Foto: reprodução / Instagram)

A icônica “Maria da Vila Matilde” representa a resistência de Elza. A música canta sobre a conscientização da violência doméstica, a respeito da criminalização disso. As frases “você vai se arrepender de levantar a mão pra mim” e “vou ligar para o 180” são como gritos de socorro. Ouça:

Fadada ao fracasso, a cantora estava fazendo show em circos humildes do interior de São Paulo, nos anos oitenta. Elza estava de novo passando por dificuldades. Ela precisava alimentar o filho (Garrinchinha). Em meio à separação do então companheiro Garrincha e às turbulências, a musa brasileira pensou em desistir enquanto Caetano Veloso a tentava convencer a não fazê-lo. No encontro, a dupla se fortaleceu. O atleta, por sua vez, faleceu de cirrose um ano após o conflito, em 1983. Já em 1984, “Língua” foi gravada pelos representantes da música popular brasileira. A mãe e artista havia perdido o homem abusivo e ganhado mais um bom amigo.

Hoje, a empoderada Elza da Conceição Soares continua quebrando paradigmas e preconceitos. A artista está lançando o segundo álbum inédito da carreira, nomeado “Deus é mulher”. O porquê do título ela mesma explicou de forma simples no programa de entrevistas do apresentador Pedro Bial, na última terça-feira (19): “deus é uma mulher, uma mulher negra”.

Além do novo trabalho, o jornalista Zeca Camargo está escrevendo a biografia da cantora. Ele declarou já estar nas últimas décadas de história de Elza, com mais de um ano de entrevistas com ela. Segundo o escritor, será uma narrativa sob a perspectiva e memória dela e o único pedido da rainha rouca foi não ser tido como uma mulher inocente, “boazinha” ou “santinha”. Em relação ao relato sobre o polêmico caso amoroso, a artista declarou não gostar de ser tratada como ‘a esposa de Garrincha’:

“Eu não preciso ser mulher de Garrincha para ser Elza Soares”, declarou potente. E ainda completou a fala de Zeca: “Eu sou uma mulher com todas as vontades, com todos os desejos, muitos defeitos. Quero gritar a minha negritude à vontade, quero gritar que sou mulher de verdade”.

 A incrível Elza Soares no “Conversa com Bial” com o apresentador e o jornalista Zeca Camargo (Foto: Ramón Vasconcelos/ Globo)

As novidades não param por aí! Um musical em homenagem à ela se aproxima no Rio de Janeiro. No teatro Riachuelo, no Centro da cidade, as apresentações feitas apenas por mulheres estreia no dia 19 de julho, com datas até setembro. A diva negra será valorizada pelo repertório artístico com direção de Duda Maia, Pedro Luís e texto de Vinicius Calderoni. O MUSICAL ELZA terá no elenco Janamô, Julia Dias, Késia Estácio, Khrystal, Laís Lacôrte, Larissa Luz, e Verônica Bonfim. Compre ingressos aqui.

No Ceará, Elza tratou de animar o público e recebeu um ‘parabéns’ incrível dos fãs. O show no festival Vida&Arte foi no palco Rachel de Queiroz na noite de ontem às 20h, prestes a completar mais um ano de vida. A apresentação foi repleta de protestos feministas, de causas LGBTQ e antirracismo, além das manifestações políticas com muito samba e MPB. Segundo ela, “A voz e a máquina”, lema do ensaio, é um “tapa na cara”.

O que não é nenhuma surpresa, porque a Elza Soares já é uma manifestação de luta, força e poder. A fome, as mortes, o relacionamento abusivo, os filhos, a carreira, o feminismo e a negritude brigavam entre si para ver quem fazia mais parte dela. Mas, no fim, a mulher negra renasceu de si mesma e resistiu às dificuldades. “Deus há de ser” mulher, deusa Elza.

Ouça “Deus há de ser”: