Cara Gente Branca volta ainda melhor e mais complexa | Crítica

Não é a primeira vez que a Netflix toca em temas como o racismo em suas produções, séries como ‘Chewing Gum’, ‘Luke Cage’ e ‘The Get Down’ (saudades), já fizeram isso antes, mas nenhuma de maneira tão incisiva quanto ‘Cara Gente Branca’ consegue fazer.

A 1ª temporada, que estreou em abril do ano passado, é uma adaptação do filme de mesmo nome, lançado em 2014, um hit indie e premiado no Festival de Sundance. O original, protagonizado por Tessa Thompson (Creed, Thor – Ragnarok) e Tyler James Williams (Todo Mundo Odeia o Chris) já trazia de modo muito aprofundado as tensões raciais vividas pelos protagonistas. Com o sucesso do filme, uma adaptação foi encomendada pela Netflix. Na adaptação Thompson e Williams foram substituídos por Logan Browning no papel de Sam, a estudante de audiovisual à frente do programa de rádio que dá nome à série, e DeRon Horton como Lionel, um jovem estudante de jornalismo com suas muitas inseguranças. A trama da temporada inicial teve início com uma festa blackface, em que estudantes brancos usavam da figura de negros satiricamente, em forma de fantasia.  A série pontuou o uso de outras culturas (asiática, indígena, latina) de modo estereotipado, muitas vezes caricatural como comportamento recorrente de brancos ocidentais. O enredo que se seguiu envolveu violência policial, protagonismo negro, política de cotas em universidades, relações interraciais e apropriação cultural.

Nesta 2ª temporada, lançada em 4 de maio, diretor e roteirista Justin Simien aprofunda ainda mais todas as discussões presentes no ano de estreia, enquanto leva seus personagens por caminhos pessoais e mais emocionais durante suas trajetórias na Universidade de Winchester. O humor permanece afiadíssimo, assim como o tom de ironia. O desenvolvimento de Coco (Antoinette Robertson), por exemplo, permanece sendo um dos maiores destaques da série, e apesar de ter menos espaço de tela e menos destaque, possui um arco pessoal rápido, mas extremamente rico e complexo. Jo (Ashley Blaine Featherson), que era apenas uma das coadjuvantes, finalmente recebeu um episódio pra chamar de seu, e o protagonismo fez muito bem à personagem, que tem algumas das melhores falas de toda a série. O arco de Sam nesta temporada também cresceu, não só mais a trama de indignação e militância, mas um mergulho em sua psique, possibilitando uma conexão emocional com o público que nem sempre foi possível na 1ª temporada. Os episódios 8 e 9 possuem os momentos mais emotivos, mas nem mesmo neles o ritmo cai, e em todos há novas pistas do mistério que embala a temporada.

Jo, Sam e Coco são, assim como Lionel e Reggie, os destaques de uma ótima temporada

O novo ano se aprofunda em todas as discussões já apresentadas, além de introduzir várias novas, todas de acordo com o que era visto na série, nada soa forçado ou enfadonho. O incômodo dos personagens brancos permanece, ainda mais agora que negros e brancos dividem o mesmo dormitório. A introdução de @AltIvy, como o perfil altamente racista nas redes sociais que ataca Sam e acaba encontrando vários apoiadores no campus, é certeira. Quem nunca viu/sofreu com ataques em redes sociais? E a história não perde tempo em salientar o quanto de ódio pode ser encontrado na internet (e o quão rápido isso pode evoluir pra ataques mais pessoais, até fora da internet).

A complexidade do roteiro, e também a dos personagens, casa bem com a de um tema como racismo. A história não deixa de fugir das contradições existentes dentro do movimento negro, que amplo e plural do jeito que é acaba por ter divergências, mas tudo é apresentado de maneira muito orgânica. A força de ‘Dear White People‘ (título em inglês) talvez chegue com mais facilidade aos que estão mais familiarizados com as discussões do que a quem está alheio a tudo, mas tudo é conduzido com tamanha clareza que fica evidente como os privilégios são maiores pra certos grupos sociais e, ao contrário do que muitos saem escrevendo pelas redes sociais, os brancos na série não são caricaturas, mas representações fieis do que existe na vida real.

Com um roteiro genial (as falas que realmente geram incômodo), ótimas atuações (especialmente de Logan Browning e Marque Richardon, que interpreta Reggie) e direção irretocável, essa 2ª temporada vem pra consolidar ‘Cara Gente Branca‘ como uma das melhores séries da atualidade, ainda que sem todo o reconhecimento que merece.

A 2ª temporada já está disponível no catálogo da Netflix. Para assistir clique aqui

PS.: A trilha sonora é uma das melhores que eu já ouvi pra uma série, vale a pena conferir.