[CRÍTICA] As transições de Becky G e a sua questão de personalidade

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De estrela teen do YouTube ao mulherão de “Sola” e “Mangú”

Carregando o combo “jovem, bela e talentosa”, Becky G é uma artista californiana de descendência mexicana que começou sua carreira e conquistou a fama extremamente cedo. Não veio de canais de TV como as queridinhas da Disney Selena Gomez, Demi Lovato e Miley Cyrus, ou as estrelas da Nickelodeon Ariana Grande e Victoria Justice; mas da internet, como Justin Bieber e Austin Mahone, cantor no qual ela teve um relacionamento amoroso e algumas colaborações musicais.

Aos 14 anos, Becky foi descoberta pelo renomado e polêmico produtor Dr. Luke, cuja atenção foi captada por seus vídeos de rap, marcados por interpretações únicas de canções como Otis, de Kanye West e Jay-Z; Novacane, de Frank Ocean; e Lighters, de Eminem e Bruno Mars. Sua performance se destacava através de sua atitude, que deixa rodeando a cabeça do público de dúvidas acerca da sua idade, por mais jovens que sejam os traços de seu rosto angelical. Tanta segurança de si e de seu trabalho refletiam em suas letras, que falavam da origem pobre de sua família californiana e suas batalhas para conseguir contratos com gravadoras. “Assinei um contrato uma vez, na sexta série, e agora estou dando minha vida nesta mixtape” e “fiz músicas que eu não amava cantar. Olhando para trás, no que eu estava pensando?” são frases que refletem sua maturidade precoce e contam sua história.

O primeiro single de Becky lançado sob o selo da Kemosabe Records de Dr. Luke (a mesma gravadora de Kesha), foi trabalhado de maneira semelhante às mixtapes que cativaram o hitmaker. “Becky From the Block” é uma releitura de “Jenny From the Block”, de Jennifer Lopez – que aparece no videoclipe. É importante ressaltar que as origens mexicanas da cantora ficam evidenciadas na faixa, que retrata sua cultura na letra, no vídeo e através de algumas expressões em espanhol. Naquele momento, Becky G se tornou a queridinha dos famosos, dividindo os vocais em faixas com Pitbull, Will.i.am, Cher Lloyd, Jessie J, Thalía e diversos outros artistas. Contudo, por mais que suas canções obtivessem um bom desempenho, ela ainda não havia encontrado a fórmula para o sucesso; nem um público, ou sequer uma sonoridade que fosse sua marca.

Outro problema observado na carreira de Becky que deixa uma grande interrogação na cabeça dos fãs é a dificuldade em lançar seu álbum de estreia. Em 2013, um EP de cinco faixas chamado Play it Again foi comercializado, porém, o foco da divulgação sempre foi apenas de singles. Cotado para 2014, prometido para 2015 e adiado para 2016, seu primeiro álbum já virou lenda urbana. O que se sabe é que, enquanto isso, a intérprete tem se aventurado em diferentes estilos e focado em uma videografia muito bem trabalhada. Estaria a gravadora tentando seu máximo de experimentações para descobrir onde a performer se encaixaria?

Segundo a própria, sua transição de artista teen para jovem adulta seria sutil, “como a de Hilary Duff”. A adolescente de “Shower” e “Play it Again” começa a trazer uma pegada bem mais pop para sua performance. É possível enxergar, posteriormente, seu crescimento profissional e o desejo de abandono da “carinha” e postura de menina em “Can’t Stop Dancin’” e “Break a Sweat”. Nestes dois singles, a cantora se entrega mais ainda ao pop e reforça suas influências latinas. “Can’t Stop Dancin’” possui uma batida caribenha que dialoga muito bem com sua proposta, que é a de um som excepcionalmente mais maduro que as faixas de seu EP. A música também ganhou um remix com o colombiano J Balvin.

A mudança nas letras também é notável. Como a maioria dos produtos pop produzidos para as rádios, as letras se tornam muito mais simples, clichês e chicletes. Becky, então, substitui as rimas sobre sua trajetória de vida por temáticas mais universais e de fácil identificação por parte do público.

A transição completa para jovem adulta acontece com “Sola” e “Mangú”. A adolescente apaixonada e sonhadora se transforma em uma mulher empoderada que canta em espanhol sobre independência feminina, mas a escolha do idioma nas duas músicas deixa no ar o questionamento: quem Becky pretende cativar – seria o público dos Estados Unidos ou da América Latina? Será que para alcançar o público norte-americano, seria mais fácil firmar seu nome entre os latinos?

Querendo ou não, o público latino a recebeu de braços bem mais abertos. Tornando-se figurinha carimbada em premiações como o Premios Juventud e o Grammy Latino, seria lógico oferecer-lhes um produto único e palpável. Versões em espanhol de hits em inglês – e vice-versa – podem funcionar para Shakira, mas não são uma fórmula segura. Enquanto ela decide qual será sua forma de abordagem, se suas gravações até então fossem reunidas em um álbum, os funcionários de lojas de discos teriam uma grande dificuldade de classificá-lo em um gênero específico. E os que esperam ansiosos por um CD ainda tentam adivinhar: qual língua irá predominar quando este finalmente sair?

Ainda sem passar muita segurança em relação a seu álbum, tudo indica que será no mesmo estilo dos singles divulgados recentemente. O vídeo de “Mangú” é uma continuação para o de “Sola”. No primeiro clipe, que começa com os dizeres “mejor sola que mal acompañada” (antes só do que mal acompanhada), Becky se livra de um relacionamento abusivo, fugindo de seu amante e recuperando sua autoconfiança. No fim do vídeo, ela ajuda a “salvar” a garota que seria a próxima vítima do ex, se disfarçando para levá-la para longe dele. Quando as duas garotas fogem em cumplicidade, o vídeo termina.

A cena final de “Sola” é a mesma em que começa “Mangú”. Após fugir com a moça, elas se tornam amigas e resgatam outras duas meninas. A mensagem de empoderamento e independência passada no primeiro clipe se soma ao recado de sororidade e união feminina no segundo. Em “Mangú”, há cenas que abusam dos clichês, como meninas com posturas rebeldes e confiantes em uma loja de posto de gasolina e se divertindo em um carro conversível na estrada, que as levará para uma festa.

Mas o que o público quer de Becky G?

Talvez a resposta esteja na letra de “Mangú”. “el quiere una americana loca, esa que le gusta la fiesta” (ele quer uma americana louca, dessas que gostam de festas). Provavelmente, ela não se sente confortável em se apresentar como a estadunidense que se rende ao twerk e performa canções feitas exclusivamente para conquistar o mercado local, como ela completa na letra: “pero yo no soy una de esas” (não sou dessas). E se ela se apresentar como latina, conforme suas origens? Não há problema, desde que consiga requebrar: “el quiere uma latina bien loca, de esas que bailando, se sueltan. Pero yo no soy una de esas” (ele quer uma latina muito louca, dessas que soltam quando dançam. Mas eu não sou dessas).

“Mangú”, então, que a princípio parecia ser uma canção sobre a forma velada de assédio que ocorre quando os homens desejam que as mulheres atendam às suas expectativas, se torna uma metáfora sobre a própria carreira de Becky G. “Eu não sou assim, mas ele insistia”, ela sussurra, como uma forma de dizer que ela não é a artista que o mercado americano quer, mas é como insistem que ela se apresente. Nota-se também um frame do vídeo em que uma bandeira dos Estados Unidos é mostrada.

Apesar de cantar sobre não gostar de festas e dizer que não é uma mulher que se solta quando dança, a performance de Becky no vídeo é a de uma “latina muito louca”, que invade um quintal para roubar roupas do varal, faz uma coreografia sensual em cima do balcão de bebidas e dorme em seu carro ao amanhecer – uma abordagem irônica à letra.

Apesar de se sair muito bem no rap, o estilo de pop latino combinou com a maioridade de Becky e parece ter sido uma escolha certeira, – “Sola” e “Mangú” podem ser consideradas suas melhores canções – o que leva a crer que será a aposta principal da gravadora para suas futuras gravações. “Shower” alcançou o 2º lugar na Billboard Hot Rap Songs e Rap Streaming Songs, e o 16º no Hot 100, a parada mais importante. Enquanto isso, “Sola” caminha no 11º lugar na parada de Latin Pop Songs (onde “Shower” ficou em 36º) e em 6º lugar em Latin Digital Songs, com “Mangú” em 17º. Com o reggaeton tomando cada vez mais espaço na indústria fonográfica, não é de se assustar se o desempenho destes últimos singles continuar a crescer. Fora que, em inglês, ela soa extremamente parecida com Selena Gomez, além de possuírem semelhanças físicas e o mesmo sobrenome (“G” é uma abreviação de Gomez); então, ela se firma com mais autenticidade.

Além de toda essa volatilidade musical (ufa!), Becky G também é atriz e será a Power Ranger Amarela no longa-metragem “Power Rangers” que irá estrear em março de 2017. Como ela cantava em “Becky From the Block”, “I won’t stop till I get to the top” (eu não vou parar até chegar ao topo) – podemos ter certeza de que ela realmente não irá. Mas, para se manter no mainstream, ela precisará manter um único foco, seduzir o público certo e encontrar uma marca registrada que vá além da fenda entre seus dentes, que caracteriza o charme de seu sorriso.