Okja | CRÍTICA

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A Netflix sempre nos surpreende com suas grandes produções que incorporam uma diversidade que pode ser vista de dentro para fora da companhia. É um espaço para todos: diretores experientes ou iniciantes, atores estreantes ou não, um espaço que estimula a transição de um artista da visibilidade local à visibilidade global (como Wagner Moura, através da série Narcos).

A abordagem de pautas sociais é um ponto alto nas obras mais recentes, que buscam ser mais que um conteúdo de puro lazer e incitam o questionamento – como 13 Reasons Why e Dear White People, que exploram temas de bullying e racismo. Seguindo essa mesma corrente, fomos presenteados com Okja, um filme dirigido pelo renomado diretor sul-coreano Bong Jong-hoo – responsável por obras que, por mais que não sejam grandes referências no ocidente, carregam grandeza e originalidade.

A proposta do filme é clara com os trailers: uma crítica a indústria de alimentos. Miranco Corporation é uma empresa que, em 2007, descobre uma nova espécie de superporcos que promete ser o futuro da carne, sendo a alternativa mais “saudável” para combater a escassez de comida no planeta. Os superporcos são distribuídos em diferentes fazendas ao redor do planeta e a empresa dá início a uma competição: o maior porco – aquele que estiver nas melhores condições – será apresentado ao mundo numa espécie de convento.
Este conceito do filme pode carregar uma analogia bem sutil à típica meritocracia norte-americana, onde os porcos são criados em diferentes ambientes geográficos e são submetidos a diferentes tratamentos (tais como rotina e alimentação), mas que devem chegar a um mesmo ponto comum em troca de um título de vencedor. Vale ressaltar que, em tese, mesmo o porco vencedor não será poupado de ir para o abatedouro. Outro elemento comum – mas que, pessoalmente, acho muito interessante – usado no filme é o da espetacularização do assassinato de animais, que sofrem abusos da empresa e são convertidos em figuras de entretenimento nas ruas de Nova Iorque.

A superporca vencedora, que dá nome ao filme, pertence a uma fazenda nas montanhas da Coreia do Sul e é extremamente apegada à Mija, neta do fazendeiro responsável por sua criação. Mija, quando descobre terem escolhido Okja para ir ao abatedouro, tenta de todas as formas impedir a morte da sua melhor amiga.

Como um filme de aventura, Okja não sai do padrão de qualquer filme de aventura que já tenhamos visto. A diferença está na violência explícita a qual os animais são severamente submetidos. Outros pontos relevantes são a fotografia e efeitos visuais por carregarem a magia do filme nas costas. Visualmente, o filme é indefectível.

O maior ponto negativo do filme é a contradição entre o final e a mensagem que a obra inicialmente nos passou através dos trailers: o que começou como uma crítica à indústria dos alimentos termina com Mija comprando (isso mesmo, no final ela compra o porco) Okja para garantir sua sobrevivência enquanto várias outras centenas de superporcos continuam indo para o abatedouro. Conclui-se que não existe de fato uma crítica ou reflexão sobre a indústria de alimentos. Mija não tenta impedir a atividade industrial em prol dos animais. Quem faz isso são personagens secundários, como o grupo “terrorista” Frente de Libertação de Animais. Mija tenta apenas impedir a morte de sua amiga para que ela não vire alimento, sem qualquer vínculo com outros superporcos da trama.

Crítica escrita por Jordan Spaker