Redemoinho – José Luiz Villamarim | CRÍTICA

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O perturbador som do silêncio

Redemoinho é o primeiro longa de José Luiz Villamarim, diretor consagrado pela linguagem televisiva. Traz a história de Luzimar (Irandhir Santos), um homem do interior que se vê em conflito consigo mesmo com a chegada de um antigo conhecido, Gildo (Julio Andrade), já que a ousadia deste desperta a dúvida sobre a própria vida, as próprias escolhas e os próprios sonhos.

Trata-se de uma história sobre encontros: do homem consigo mesmo, da capital com o interior, da expectativa com a frustração, do sonho com a realidade, do passado com o presente. O longa traz uma leitura muito significativa sobre as relações espaço-temporais que se desenvolvem numa cidade pequena do interior de Minas Gerais. Ali, a cultura da inércia está muito bem demarcada, ao passo que a rotina é construída sob a atmosfera da estagnação, da acomodação e da repetição. Em contraposição, o ambiente fabril, na ótica trazida pelo filme, dá o tom exato das relações que se estabelecem em torno do trabalho, que desempenha um papel único e exclusivo de fonte de sobrevivência. A abordagem trazida chega a ser claustrofóbica, tamanho o incômodo causado pelas inquietações naturalmente pertinentes a um ciclo de produção industrial.

O trabalho, aqui, não é território de sonhos. Não existe plano de carreira, projeto de futuro, planejamento profissional, mas sim uma ideia alienante que cumpre muito bem o papel de silenciar a frustração de um interiorano ora disposto a ganhar a vida em busca da felicidade. A fábrica representa o grande encontro entre o caos urbano e a pacacidade do campo. A passagem do trem repercute a invasão da fumaça na poeira e compõe a brutalidade com que o barulho dos motores se sobrepõe ao canto dos pássaros.

Luzimar é um homem dominado pela desilusão. Vive de maneira protocolar, sua expressão escancara o sonho anestesiado (se é que ele um dia existiu), aquilo que poderia ter sido, mas não o foi. Essa acomodação, porém, entra em choque com os ares da metrópole, personificados na figura de Gildo, um homem profundamente marcado pelas raízes históricas da vida provinciana e por todos os valores que delas advêm. Sua volta à casa da mãe provoca aos locais a idealização da vida fora dos cercos, a liberdade além das fronteiras. Representa o direito de sonhar, de ousar, de correr atrás. Representa o direito à felicidade, naturalmente negado pelas limitações da vida no campo. A ideia de libertação está consolidada na autoconfiança de Gildo, que, no entanto, esconde no íntimo a decepção consigo mesmo, disfarçada na prepotência da construção da imagem bem-sucedida.

Formalmente, o longa é riquíssimo. Presenteia o espectador com enquadramentos ousados, principalmente nos primeiros minutos, enquanto ainda se preocupa em apresentar as personagens e o contexto da história. O movimento de câmera é interessantíssimo. Imprime ritmo e dá a quem está assistindo a impressão de que está acompanhando de perto o desenrolar da história. A cenografia é muito convincente. O território da moradia, da indústria e do espaço público são muito fiéis à realidade estética da província. Outro fator que merece destaque é o papel desempenhado pelo som ao longo da narrativa. O som demarca emoções, cicatrizes, influencia os acontecimentos e serve como pano de fundo para os constantes conflitos que se desencadeiam. O roteiro é muito bem escrito e apresenta pouquíssimos incômodos. Em raros momentos, os diálogos saem do tom e soam artificiais.

No campo das atuações, as mulheres roubam a cena. Cássia Kiss, na pele de Dona Marta, é, como de costume, visceral. Traz na expressão a composição da mãe, da mulher, da dona de casa, da interiorana. Divide-se entre a admiração pelo filho bem-sucedido, Gilmar, e o sentimento difuso que expressa pelo outro, Gildo, que passeia entre a preocupação e a indiferença. Dira Paes é um show à parte. Está claro em seu trabalho de construção de personagem a neutralização da dor de uma ex-prostituta. Isso está bem claro na cena do estupro (também muito marcada pelo som, em uma abordagem genial), em que há uma naturalização angustiante da violência sexual. Naquele momento, está nítido que aquela era apenas mais uma vez em que a personagem era violentada emocionalmente. Os anos de prostituição lhe trouxeram a indiferença pela invasão de sua intimidade.

Outra leitura muito impactante é a da nudez, que aparece em dois momentos. No primeiro deles, anterior ao estupro, Toninha (Dira Paes) aparece como dona de si própria, manipulando o próprio corpo com a atitude de uma mulher segura de si. No segundo, posterior à violência, tenta se esconder de si mesma, apagar as marcas, silenciar o grito de revolta.
O silenciamento está muito presente na cultura provinciana. Os medos são silenciados, assim como as frustrações, as inseguranças, as violências, as revoltas, as inquietações, os arrependimentos. O passado é oculto e não se fala sobre ele. As angústias não se exteriorizam. Os valores de uma sociedade marcada pelas relações de poder (muito em virtude da discrepância entre as classes sociais, que ali estão bem definidas) e pela opressão são colocados em confronto com os conflitos morais individuais de cada uma das personagens.

Redemoinho é uma narrativa sobre identidade, sonho e empoderamento. Trata de uma sociedade que foi privada do direito de ousar, de crescer, de ser. A demarcação de fronteiras se dá pela construção de barreiras que separam o que se quer do que se pode. O sucesso tem uma caracterização controversa, digna de um povo que não conhece a si mesmo porque não teve esse direito. Nessa história, os vilões estão dentro de cada personagem. São as angústias, os remorsos e os receios. São tudo aquilo que massacra a fantasia do novo. São tudo aquilo que poderia ter sido e não o foi. São a inércia de um povo “que não vive, apenas aguenta”.

Cotação: 4,5

Autor: Gabriel Garcia