Entrevista: Conheça Bernardo do Espinhaço, representante de uma nova vertente da música popular brasileira

Você já ouviu falar em “Música Popular da Montanha”? Foi essa a definição encontrada para descrever o trabalho de Bernardo do Espinhaço, um jovem cantor, compositor e multi-instrumentista de Minas Gerais que, com uma proposta musical pouco convencional, conquista novos públicos e a atenção da crítica especializada.

“Homem interessado pelas lonjuras”, como ele se descreve, as experiências com a natureza são sua principal fonte de inspiração. Adepto do montanhismo, ele transforma as vivências com as travessias e paisagens em poesia.

O artista lança o seu terceiro álbum de estúdio, “Tardhi”, e conta ao Poltrona Vip sobre carreira, música e tudo aquilo que o transforma em um artista tão único.

Poltrona Vip: Um crítico musical classificou seu som como “Música Popular da Montanha” e você abraçou essa definição. Por que você sentiu que ela te contemplou tanto?

Bernardo do Espinhaço: O tipo de canção que eu faço está inserido no contexto da nova música popular brasileira, que flerta com o indie e tem um pouco de folk e world music também. Mas a minha tematização é o que me segrega porque não é comum neste tipo de música uma genuinidade temática. Como eu componho inspirado em montanhas, eu acabo tendo um tipo de produto cultural bastante peculiar. Há algum tempo, fiz um levantamento com algumas marcas que me apoiam e não localizamos no mundo nenhum músico que se inspira em montanhismo para compor. Quando rolou essa definição, eu fiquei feliz porque ela diz bastante sobre o que minha música é de fato. Embora eu não esteja limitado a esse cenário de composição, é um assunto muito recorrente, então acaba sendo um título muito coerente.

PVIP: Como você mesmo acabou de destacar, você faz um som bem único e os conteúdos das suas canções não são convencionais no nosso mercado. Quais foram as principais influências para sua formação como compositor e musicista?

BE: Por ser de Minas Gerais, o Clube da Esquina é sempre uma referência recorrente. Desde criança, escuto muito e acho que as pessoas identificam isso na minha música. Mais recentemente, eu tenho escutado muita música indie gringa. Gosto muito de Nick Mulvey, Sufjan Stevens, Bon Iver… uma galera mais alternativa de fora. Aqui,  eu também acompanho tudo que sai: Carne Doce, Cícero, Rubel… Esses caras todos me interessam, gosto de ver o que eles estão fazendo. Tem uma cena em Belo Horizonte também que é interessante, que me influencia, mas pelo aspecto bairrista, são nomes pouco conhecidos. A minha mãe é pianista e foi o primeiro instrumento que eu toquei bem novo. Acho que isso deve ter influenciado bastante.

PVIP: A internet democratizou o acesso das pessoas à música e permitiu que novos artistas pudessem se mostrar ao mundo. Como você vê esse mercado digital? Consegue destacar bônus e ônus dessa nova maneira de consumir música?

BE: De modo geral, eu vejo uma quantidade bem maior de benefícios. A palavra “democratização” já pressupõe igualdade e possibilidade de decisão coletiva. O que acaba sendo negativo nesse cenário todo é que há uma quantidade muito grande de conteúdo disponível e acaba sendo difícil, ao mesmo tempo que você está nessa possível vitrine, o seu espaço nesta vitrine acaba sendo pequeno. Não é fácil você chegar nas pessoas mais uma vez. É bem diferente do que acontecia há muitos anos atrás com as gravadoras, onde existia um grupo pequeno de músicos que concentrava a popularidade. Hoje, é bastante diluído e a dificuldade toda é conseguir encontrar aquilo que eu gosto, como consumidor, e de ser encontrado, enquanto músico. Só para dizer um ponto negativo, porque, realmente, grande parte dessa mudança é benefício. Dar oportunidade para todo mundo é maravilhoso.

PVIP: A capa do “Tardhi” conta com uma ilustração belíssima de Jhon Bermond. Qual o conceito dessa ilustração e de que forma ela dialoga com o conteúdo do álbum?

BE: Eu conheci o trabalho do Jhon há uns quatro anos quando ele criou uma arte inspirada no meu disco “O Alumbramento de um Guará Negro numa Noite Escura” (2014) e a gente acabou se aproximando. Foi muito especial porque eu me encantei rapidamente pelo trabalho que ele faz e ao longo dos anos, a gente trocou muita possibilidade artística. Quando surgiu a ideia do “Tardhi”, ele já sabia que eu me identifico bastante com o lobo-guará, um animal tipicamente da região do Espinhaço e também do Cerrado brasileiro. Então, a gente divagou sobre trabalhar em cima desse símbolo, humanizando o guará e colocando ele como bípede. Tem outras referências à minha obra, por exemplo, o pássaro a esquerda que é a rolinha-do-planalto, que foi redescoberta recentemente e eu fiz uma canção pra ela. Embaixo, tem a perereca-de-pijama, um sapo endêmico da região da Serra do Cipó. Tem as sempre-vivas, que são as flores típicas do Espinhaço. É como se fosse uma identificação minha através da ilustração.

PVIP: Recentemente, você lançou clipes das faixas “#Boralá” e “A Trilheira”. Qual a importância da experiência visual para o seu som? Seus fãs e admiradores podem esperar próximos vídeos do “Tardhi”?

BE: Estamos vivendo um cenário onde tudo tem uma correspondência estética e o fator imagético é muito determinante. Um dos objetivos que eu tenho com o “Tardhi” é fazer um videoclipe para cada canção. Não sei ainda se vou conseguir realizar porque isso envolve uma série de questões, mas já tem outros dois clipes sendo preparados. Pretendo também lançar algum material tocando ao vivo essas mesmas canções. É um caminho inevitável a gente pensar sempre no formato audiovisual e não só mais na música em si, então, eu tô caminhando pra isso, como todo mundo.

PVIP: Que tipo de público você busca alcançar e qual mensagem você gostaria que o ouvinte do “Tardhi” captasse?

BE: “Tardhi” encerra uma trilogia. Meu primeiro disco éO Alumbramento de um Guará Negro numa Noite Escura”, depois o “Manhã Sã” (2015) e “Tardhi”, o último. Cada um desses discos correspondem a uma vibe, a uma energia conceitual, a um momento de fato. Então, madrugada, “…Noite Escura”, é um disco mais low. O “Manhã Sã” é um disco que tem um pouco dessas duas energias. E “Tardhi” é um disco que tenta ser alegre, pra cima e mais positivo. Se tem algo que eu quero deixar, é essa vibe boa, pensamento positivo. É uma coisa que tem muito a ver comigo, com meu jeito de ser. Acho que esse é o lugar que mais me interessa estar: no coração das pessoas. Sobre o perfil do público, eu não tenho restrição a nada. Se a pessoa se encantou com o que eu faço, ela já me interessa, já estou feliz por ter essa conquista.