Phil Collins mostra, no Maracanã, por que recebe o título de lendário

(Créditos: AGNews, Wallace Barbosa)

Se você é hoje um adolescente ou um jovem adulto, pode ser que não conheça as músicas de Phil Collins e Genesis tão bem como seus pais. Mas, se assistiu aos filmes da Disney “Tarzan” e “Irmão Urso”, o cantor-compositor britânico fez parte de sua infância. Em sua primeira vinda ao Brasil em carreira solo, ele mostrou por que sua turnê nos convida para assistir a um artista lendário, através de uma setlist recheada de sucessos que comprovam a sua magnitude.

Collins chegou ao Maracanã na noite de quinta-feira com sua pontualidade britânica, iniciando o show às 21:30h, cravado. O estádio estava cheio – muitos casais, cinquentões e jovens acompanhados dos pais. Após a banda se acomodar, o público viu o cantor de 67 anos chegar com uma bengala na mão e um sorriso no rosto, para sentar-se no meio do palco. Devido a problemas de coluna, ele não faz mais shows em pé. Entretanto, a mobilidade, principalmente na mão esquerda, e audição debilitadas não o impedem de continuar com a mesma voz incrível e emocionante.

E é com uma das músicas mais emocionantes de sua carreira que ele começa a apresentação. Composta para o filme “Paixões Violentas” em 1983, e posteriormente regravada por Mariah Carey no álbum “Rainbow” em 1999, “Against All Odds” é entoada por Collins e acompanhada em coro pela plateia. Dando sequência,  com outra composição notável, “Another Day In Paradise”. Ele vai se adaptando e sentindo em casa aos poucos, durante o decorrer do show. É o primeiro da série da América Latina em sua turnê de retorno, após um hiato de anos.

Em sua autobiografia lançada em 2016, nomeada “Not Dead Yet”, (Ainda Estou Vivo, em português), ele fala de seu envelhecimento e sumiço dos holofotes através de seu “humor inglês”. O livro está sendo lançado no Brasil este ano pela editora Best Seller. “O título é uma brincadeira. Acho que ele significa que há mais coisas por vir”, diz. Em suas páginas, ele declara uma grande amizade com a banda que fez parte de tantos anos de sua carreira, a Genesis, caracterizando-os como um “porto seguro”.

É o que ele prova no show. Já completamente à vontade, ele faz o público delirar com “Throwing it All Away” e “Invisible Touch”. A apresentação de “Follow Me, Follow You”, trouxe nostalgia também de maneira visual: o telão, que antes ambientava as canções com planos de fundo tropicais ou acinzentados, exibiu imagens e vídeos da banda em seus tempos de ouro. Empolgado, ele chamava a plateia para dançar e cantar junto. Mesmo sob uma ameaça de chuva com uma garoa entre o show de abertura e o principal, o clima estava ameno, e ele brinca sobre tirar o paletó: “no jacket, no jacket”, fazendo referência a seu álbum de 1985, “No Jacket Required”, vencedor de dois Grammy Awards.

Chegando a hora de apresentar os integrantes da banda, ele passa por cada um com muito carinho e deixa o baterista – em destaque – por último. No meio dos mais velhos, o dono das baquetas é Nic Collins, filho de Phil, e tem apenas 16 anos. Foi na bateria que Phil Collins começou no Gênesis, em 1971. Com este exímio professor desde os dois aninhos de idade, não é de se impressionar que o adolescente tenha culhão de acompanhar a banda experiente com maestria. Orgulhoso do filho, Phil diz: “é um bom menino”. E não é o único filho artista dele: vocês conhecem Lily Collins, não é? 😉

O show é coeso, tanto em setlist como em agrupamento. Mesmo cantando sentado, não há monotonia. Os backing vocals e instrumentistas de sopro se movem pelo palco em momentos mais animados, interagindo com o cantor e o público. Um dos pontos mais altos foi quando todo o palco foi tomado por estrelas e Phil dividiu os vocais com Bridget Bryant, em uma apresentação belíssima de “Separate Lives”.

“Something Happened On The Way To Heaven” fez o Maracanã cantar junto o refrão motivador. Em seguida, outra entre a lista de favoritas: “In The Air Tonight” foi entoada junto a um jogo de luzes roxas que deixou o estádio lindo. O show caminhou para o final cada vez mais animado e dançante. “You Can’t Hurry Love”, em tons alegres de amarelo e dourado; “Dance Into The Light” ganhou um semi lyric video, “Invisible Touch” trouxe de volta a vibe do Genesis e um clima dançante. “Easy Lover” chegou com fantástica energia e “Sussudio”, também um de seus maiores hits, finalizou o show com confetes metalizados, serpentinas e muitas, muitas cores no palco. A banda voltou com o bis para a performance de “Take Me Home”, e poderia ter voltado com “Don’t Lose My Number” e “You’ll Be In My Heart”, canções as quais o público sentiu falta.

O sorriso e a satisfação de Collins foram reflexo da recepção calorosa do Rio de Janeiro, de um artista que vendeu mais de 100 milhões de álbum tanto em banda, como em carreira solo. Quem é fã há tempo, teve a oportunidade de ver o cantor de novo depois de quarenta anos. Os mais jovens que não presenciaram a passagem do ex-baterista e vocalista do Genesis, puderam comprovar por que ele é chamado de lendário. Essa turnê é uma oportunidade e tanto presenciar este ícone da geração musical dos anos 80 – cujo som não fica velho nunca. “Obrigado. Isso é tudo o que eu sei falar em português”, disse, humilde e sorridente, o dono da noite.

The Pretenders

A abertura do show ficou por conta do The Pretenders, e vale ressaltar, que show! Chrissie Hynde, com 66 anos, esbanjou voz, energia e atitude rock’n’roll, sem parecer um clichê caricato, mas um mulherão da porra. O baterista Martin Chambers, que usava uma camisa do Brasil, cativou a plateia jogando suas baquetas. A banda apresentou um cover de “Forever Young”, do Bob Dylan. “Don’t Get Me Wrong” foi bem animada e “Stand By You” encheu todos de nostalgia e emoção, na canção que a vocalista disse que todos se lembrariam – e acertou. O dia 22 de fevereiro foi marcado por uma noite onde os mais experientes mostraram todo o talento que não se acaba com o tempo.