RESENHA | Ordem Vermelha: Filhos da Degradação (Vol. 1) – Felipe Castilho

Fantasia Nacional, Heróis (Não-Tão) Improváveis e o Poder da Narrativa

A Palavra (com letra maiúscula mesmo) é uma habilidade exclusivamente humana. Nenhum outro ser vivo deste planeta foi capaz de elaborar um sistema tão complexo de códigos visuais e de ser entendido por outros semelhantes. E a Palavra, não só nos distinguiu das outras espécies como nos definiu. O que somos, quem somos, o que queremos, de onde viemos, para onde vamos, tudo pode ser definido em palavras. E a Palavra é protagonista desta obra.

Bom, mas vamos voltar um pouquinho antes de chegarmos lá. ‘Ordem Vermelha’ é um livro de fantasia do autor nacional Felipe Castilho, lançado como um projeto na Comic Con Experience (CCXP) em parceria com a Intrínseca. É importante falar isso porque o livro nasce voltado para um público específico – os amantes da Cultura Pop / Nerd. Não que isso jamais interfira na capacidade de qualquer leitor se encantar com o universo criado a partir dessas ideias.

A estrutura do livro é bem parecida com um quest de RPG – um mito como plano de fundo, um grupo de aventureiros com habilidades diversas e uma missão a ser realizada. O mito criador é ‘A Fúria dos Seis’, um conto bem parecido com o Gênesis revelando o nascimento das seis raças (humanos, anões, gigantes, sinfos, kaorshs e gnolls) e como os deuses se tornaram Una, a deusa de seis faces que controla e domina Untherak uma cidade-Estado dominada pela Centípede e pelo General Proghon.

Ufa! Esse parágrafo já mostra que o leitor vai ter que se empenhar em entender os aspectos desse novo mundo pra conseguir seguir a história. Poderia ser uma complicação? Poderia, mas não é. Todo o talento de Castilho se mostra exatamente nesse ponto. Em nenhum momento essas informações são marteladas ou catalogadas para o leitor. Elas vão sendo organicamente pontuadas ao longo de toda narrativa e a impressão que se tem não é de um forasteiro conhecendo um lugar novo, mas de um nativo de Untherak, nascido e criado no Miolo, no Segundo Bosque ou nos Assentamentos sob o olhar frio de Una.

Falando sobre isso,é inegável que esse senso de identificação vem do fato que que esse livro é de cunho nacional. Diversas características e referências que constroem esse mundo são totalmente retiradas desse nosso Brasil brasileiro, terra de samba e pandeiro. Terra que exerce forte influência também na personalidade dos nossos heróis e heroínas.

Aelian, Raazi, Ziggy, Harun, Aparição e Venoma são brilhantes construções e cada um deles merecia um parágrafo próprio (até mesmo Proghon merecia!). Pessoas complexas, falhas, virtuosas, com jeitos e vontades próprias. Reais. É fácil se identificar com o desejo de liberdade do humano, a teimosia do anão, a inocência do sinfo ou a determinação da kaorsh. Mais fluido ainda é enxergar em cada momento do livro, situações e conflitos que presenciamos todos os dias: o lucro acima da Natureza, o preconceito se impondo ao amor, a política sendo feita para poucos em detrimento de muitos, problemas que muitas vezes nos sentimos impotentes para mudar. É extasiante confrontar o novo e o conhecido mesclados em diversas passagens.

Untherak não é um lugar bonito – esqueça Winterfells e Valfendas, não temos nada do gênero aqui. Untherak é um lugar sujo, seu governo é corrupto, sua população explorada e sua vida difícil. O maior crédito de Castilho é nos fazer enxerga a beleza desse lugar. Enxergar e querer de fato, fazer algo para mudá-lo. Esse é o sentimento que move o leitor e a narrativa.

É um épico que fala sobre lutar contra opressão, não aceitar o que foi estabelecido só porque “sempre foi assim”, de fazer questionar porque certas regras foram feitas, como e por quem elas foram estabelecidas. E sobre como usar a maior arma e maior esperança que a humanidade detém poder: a Palavra (chegamos nela).

A Rebelião de Aparição é toda construída nesse ‘pequeno detalhe’. (E como eu achei tão genialmente simples essa decisão do autor!!). Não se precisa destruir anéis mágicos, juntar esferas de dragões ou achar partes de uma alma trancadas em objetos. A “coisa” mais necessária para que se vença o poder estabelecido é mudar a narrativa. Tão simples de dizer, tão difícil de alcançar Convencer as pessoas que ser feliz não é errado, que ser você mesmo não é pecado nem que buscar seu próprio caminho é nocivo.

Mas se você também ama boas cenas de ação, batalhas épicas, reviravoltas de deixar sem fôlego e surpresas que te fazem ficar olhando por livro pra ver se leu certo mesmo, então ‘Ordem Vermelha’ é pra você também. O texto tem alguns pontos mais lentos (de desenvolvimento e passagem de tempo) mas quando é pra acelerar o ritmo… Sugiro que esteja com os exames cardíacos em dia! ( E as Páginas Negras… Ainda não consegui decidir se amo ou odeio aquele final provavelmente os dois).

Pode-se notar que não falei muito da história em si. Tudo bem, porque a sinopse oficial está aí pra isso. A obra em si, não se contém em sua narrativa ou em seu texto. Este é um livro que te faz sentir. Arrepia, encanta, choca e emociona em cada página. Sem nunca subestimar a inteligência de seus leitores(as), Felipe Castilho aborda cotidiano e fantasia e entrega um exemplar tão sensacional que, quando o choque do final passar (depois de um ou dois meses você se recupera, espero – ainda não cheguei lá) só fica a sensação de que algo mudou. Se não em Untherak, em quem terminou a leitura.

Titulo: Ordem Vermelha: Filhos da Degradação (Vol. 1)
Autor: Felipe Castilho
Editora: Intrínseca
Gênero: Ficção
Série – Volume: 1
Número de páginas: 448 páginas
ISBN: 9788551002698
Ano: 2017

Resenha escrita por Ludmilla Fadel (@ludmilla_fadel)