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Crítica de Filmes

“Lamb” é uma experiência autêntica do cinema alternativo | Crítica

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Tem sido muito comum que filmes distribuídos ou produzidos pela famosa A24 gerem tantas opiniões controvérsias, já que a produtora é conhecida pela liberdade que seus diretores possuem para criar obras extremamente atípicas e subjetivas, segundo a imaginação de cada autor. Cineastas como Robert Eggers, Yorgos Lanthimos, Ari Aster e Rose Glass foram alguns dos quais tiveram oportunidade de trazer à luz histórias que consumiram a mente até dos fãs de enredos mais arrojados, roteiros que dificilmente teriam espaço nas grandes corporações de Hollywood. Através de “Lamb”, longa-metragem exibido recentemente no Brasil, na 45ª Mostra de São Paulo, mas que só estreará oficialmente em fevereiro de 2022, através da plataforma MUBI, o diretor iniciante, Valdimar Jóhannsson, vem para dialogar um pouco mais sobre essa linguagem alternativa a qual tem sido um dos pilares para a polarização das críticas sobre os projetos oriundos da jovem produtora.

   Atualmente, carregar o logo da A24 é como reter um selo de qualidade, e não é para menos, já que a empresa em seus poucos anos de existência revelou produções que foram consideradas pérolas do cinema contemporâneo, como “A Bruxa” (2015), “Moonlight” (2016), “Projeto Flórida” (2017), “Midsommar” (2019), entre outras. Todas elas se tratando de composições fora dos padrões comerciais, que chamam a atenção pela sua atmosfera autoral, seus argumentos profundos, narrativas singulares e visuais peculiarmente artísticos. Mas será que “Lamb” consegue perpetuar essa identidade tão extravagante? O que já se pode dizer é que a obra está sendo aclamada pela crítica especializada e cotada para representar a Islândia na categoria de melhor filme estrangeiro no Oscar de 2022.

  A história acontece numa região remota e isolada da Islândia, onde um casal solitário passa a vida cuidando de ovelhas. O cotidiano monótono e aparentemente intocado, a não ser pela perda e pelo o luto, da melancólica fazenda sofrerá enormes mudanças com a chegada de “Ada”, uma criatura hibrida (metade humana e metade ovelha), que o casal adotará como filha, escolha a qual irá trazer à tona inseguranças do passado e consequências turbulentas para o futuro.

    É interessante mencionar que “Lamb” é, além de bizarro, ambíguo. O que não é nada incomum dentro do mundinho A24. Com uma narrativa lenta, longos intervalos entre as sequências e com pouquíssimos diálogos, o filme brinca com as emoções do espectador através da sua capacidade de extrair diferentes sensações de uma vez só. Isso porque a trama utiliza de elementos tão excêntricos que ao mesmo tempo em que conseguem causar muita estranheza e desconforto também são capazes de fazer rir. Isso para muita gente soa como um defeito ou falta de equilibro entre o suspense e o humor, como se a ideia não conseguisse sair de cima do muro. Mas para outros essa dualidade favorece a construção da obra, fazendo com que ela se aprofunde em camadas mais intensas de significados e incentive a dinâmica das interpretações pessoais.

Esse debate reflete, talvez, a essência dos novos tempos, ou melhor, reflete como esta geração tem resgatado antigos valores. Syd Field, consagrado roteirista americano, professor, produtor e autor de livros, já discutia em suas obras, em meados dos anos 90, que “os finais ambíguos acabaram. Sumiram. Ficaram nos anos 60”, justamente o contrário do caráter ativo do público atual que assiste filmes esperando resoluções não tão definidas, como um exercício de interpretação, pois a intenção agora não é mais só assistir filmes de forma passiva e sim encontrar brechas para exercer também a sua própria subjetividade dentro das histórias que são contadas. É como fazer parte do desenvolvimento da própria obra em si.

   Ainda falando de “Lamb”, o filme se constitui principalmente naquilo que é visual, no não verbal. E nisso ele é autêntico.  Os planos abertos e centralizados expõem a fotografia como uma peça de arte, o silencio é para ser examinado e as expressões e o comportamento dos personagens são o caminho para entender seus dilemas, substituindo aquilo que não é, mas poderias ser, dito. É um corpo para ser contemplado, que se comunica através daquilo que está subentendido. O longa abraça uma trama amarrada em elementos ímpares e conta um relato para lá de estranho.

O trabalho do elenco é especial e transborda naturalidade, com destaque para a atuação intensa e segura de Noomi Rapace, mais conhecida pelo seu trabalho em “Os homens que não amavam as mulheres” (2009), que juntamente com Björn Hlynur Haraldsson e Hilmir Snær dá vida a um drama familiar cheio de suspense. O roteiro é assinado pelo próprio Jóhannsson ao lado de Sjón, poeta e romancista islandês, que também já colaborou com grandes nomes como a musicista Björk e o cineasta Lars von Trier.

Por fim, “Lamb”, assim como outras propostas da A24, se trata de uma realização fora da curva e experimental. Como o próprio diretor deixou claro, é um conteúdo Arthouse. Apesar de o termo ser rejeitado por muitos cinéfilos, por transparecer elitismo, é uma dica para entender essa discussão.

Assista o trailer:

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