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Entrevista | Rafael Cortez fala sobre espetáculo o “Antivírus, o show”: “Me sinto um vitorioso”

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Em tempos de pandemia, muitos foram os jeitos encontrados pelos artistas de estarem próximos dos fãs e, além das lives, show no formato drive in foi uma das alternativas encontradas para continuarem em atividade. Dono de muitos talentos, Rafael Cortez lançou no último mês o “Antivírus, o show”, um espetáculo de stand-up gravado em drive-in.

Com um texto respeitoso, o novo show de Rafael não fala sobre o vírus em si ou de todos os problemas políticos e sociais que vivemos no país, mas sim da vida no isolamento social. “Eu tô fazendo um show de isolamento social, o tema é isolamento social, não é o coronavírus. […] Eu não falo sobre as mortes. Sobre as entubações. Eu não falo sobre as famílias desesperadas, sobre as falências. Sobre a crise política, sobre fome, sobre fechamento de negócios, a reputação péssima que o Brasil tem no exterior. Não tem isso no meu show, porque disso não dá pra fazer piada, entende? Eu não posso falar sobre alguém que está entubado, porque na plateia tem alguém que perdeu um parente pro coronavírus.”, explica.

Vivendo uma nova fase na carreira, Cortez conta que para o “Antivírus, o show” se impôs a regra do bom gosto e respeito para tratar de um tema que fez parte da vida de todas as pessoas nos últimos meses. “Não é difícil pra mim seguir a regra do bom gosto e respeito na comédia porque eu tô com quase quarenta e cinco anos, eu tô há muitos anos fazendo comédia, eu já tive a minha fase de fazer textos mais pesados, grosseiros. Eu já tive a minha fase de rir das pessoas, de fazer bullying com as pessoas, quando eu tinha muito público e era muito conhecido na época do CQC, eu tinha uma confiança pra ser mais sacana, sacaneador, né? Inclusive, são os os shows que eu menos gosto na minha carreira até hoje. Os shows que eu fiz com muito poder de fama, com muita bala na agulha. Acho que são os meus piores shows da carreira, porque eram shows que zoavam as pessoas. E eu nunca fui um bulinador. Eu nunca fui um cara essa facilidade de fazer um humor ácido, um humor desconcertante, sabe? Eu sempre fui família, eu sempre fui bom moço, eu sempre fui educadinho, tímido. Mas na época do CQC, eu fiquei muito forte e me encorajei de fazer uns humores mais pesados.”, conta o artista.

Rafael continua relembrando das etapas da carreira e fala de quando começou a fazer shows praticando um autobullying assim que a era do cancelamento na internet surgiu. “Tudo que a gente dizia era passível de cancelamento na internet, tudo que a gente falava podia ter alguém filmando na plateia […] os shows passaram a ser um lugar perigoso, a pessoa podia sacar o celular em um improviso que você fez ali, colocar aquilo fora de contexto na internet e acabar com a tua vida. Então, eu encontrei uma solução que era o autobullying”, completa o artista, que reforça a nova fase da carreira. “Cheguei nessa etapa que eu tô agora, que é fazer todo mundo rir junto de alguma coisa, que possa ser engraçada, sem zuar alguém, me zuar, sem derrapar, sem ser politicamente incorreto, etc, etc. Que é bem mais difícil do que fazer humor escrachado zoando a si ou os outros. Então, esse é o show mais difícil da minha carreira.”, conta.

A ideia de construir um novo espetáculo surgiu após Cortez apresentar “O Problema não é Você sou Eu” a bordo de um navio, durante o réveillon de 2019. Em 2020, o plano principal era investir ainda mais na comédia, mas a pandemia impossibilitou que saísse realizando shows para o grande público. No entanto, o artista não desanimou, se voltou para as lives e começou a estudar como faria este novo show.

“Aquele navio foi uma injeção de ânimo. Então, eu já tava imbuído disso, sabe? De fazer de 2020 um ano de dedicação à comédia de stand-up. E aí veio a pandemia e eu falei “Vou parar por causa da pandemia? Não. Então, vou tentar fazer show de comédia via live.” As primeiras coisas que eu fiz foram sessões do “O Problema não é você, sou eu”, meu solo até então, em live de Instagram. Aí eu falei “Legal, mas vai ficar nisso? Poxa, se eu fizer um show sobre o isolamento social?”. Porque na comédia, a gente sempre busca os assuntos que são comuns a todas as pessoas que você puder imaginar. O que faz sucesso na comédia é a identificação do público com aquilo que o comediante tá dizendo. […] O isolamento social é a bola da vez, tá todo mundo falando sobre isolamento social e vivendo isolamento social, em maior ou menor escala. Do negacionista até o profissional de saúde, todo mundo teve que viver o isolamento social de alguma maneira. E aí eu falei “Esse é o assunto da vez, vou fazer um show sobre isso”. Eu fui testando nas lives, aí eu comecei a me dedicar, passei a fazer todo domingo, durante um tempo da pandemia às oito horas da noite, com chuva ou com sol, eu tava lá, na live testando o conteúdo. Durante a semana, eu ia observando coisas, estudando e escrevendo, até chegar num modelo que eu ficasse confiável o suficiente pra começar a experimentar em drive-in. Ter os textos praticados em drive-in foi uma outra etapa que aconteceu muito depois. Mas foi assim que surgiu esse centro de vírus do show”, explica.

Se nas grandes plateias Cortez conseguia medir a recepção do público, testar o texto do “Antivírus, o show” no show drive-in sem poder ouvir as risadas foi uma das grandes dificuldades do artista. Orgulhoso do projeto, Rafael conta que foi bastante difícil, mas está satisfeito com o resultado e de ter tirado do papel um espetáculo que considera um registro do que foi o entretenimento na pandemia.

“A parte dos testes foi uma parte traumática, assim. Eu fiz, eu me orgulho, eu sou o único cara do cenário brasileiro que fez um show cem por cento inédito sobre o tema do momento, isolamento social, que testou esses conteúdos em lives de redes sociais e que subiu um especial gravado durante a pandemia, no drive-in, que é onde dava pra fazer espetáculo. Isso aqui é um registro completo de uma época. […] Então, foi bem difícil, mas eu fiz, né? Foi bem difícil, mas eu fiz e era muito complicado testar piada sem ouvir risada. Depois foi muito complicado fazer piada pra carro e não entender esses registros, né? Buzina era risada, piscou o farol, o cara tá me repreendendo, ele tá dizendo, boa? E, às vezes, não tem nem buzina e nem farol e não significa que a pessoa não tá dentro do carro dela rindo. Ela pode tá rindo muito, mas ela não tá buzinando, porque ninguém gosta de buzina, né? A real é essa, ninguém gosta ouvir e ninguém gosta de buzinar. Então, muitas vezes, a dificuldade no drive-in, era respeitar o que na minha cabeça seria um silêncio, mas que não necessariamente era silêncio, porque na plateia, dentro dos carros fechados ali nos seus confortos, dentro dos seus SUVs, as pessoas poderiam tá rindo. aí tem que ter uma confiança do comediante, ele tem que saber que a piada que ele tá contando é boa, ele tem que saber que ele está contando do jeito certo e pra isso não tem outra história, tem que ter bagagem, tem que ter experiência, tem que ter trajetória pra poder contar essa piada e saber que ela tá indo bem, mesmo que você não esteja ouvindo as risadas que possível estão acontecendo dentro dos carros, né? E a parte mais divertida é ter um especial no ar, isso é muito divertido pra mim, isso é profundamente satisfatório, realizador, eu me sinto um vitorioso de ver que o espetáculo que eu criei com tanto sofrimento, que foi tão difícil de fazer, que foi tão difícil de testar nas lives e depois de levar pra palco de drive-in e etc, resultou em um show que tá no YouTube.”, completa Cortez, que continua dizendo que o espetáculo teve uma ótima recepção no meio corporativo e já lhe rendeu alguns contratos.

Embora o período de pandemia tenha mudado completamente a rotina das pessoas, Rafael Cortez tentou tirou bom proveito deste momento e focou na produção de conteúdo. O apresentador e cantor começou a realizar lives, trabalhou em novos projetos e tirou muitos outros do papel.

“A pandemia foi muito importante pra mim, no sentido de realização de conteúdo. Assim que começou a pandemia, eu não subestimei, eu sabia que ia ser um processo longo, seria um longo e tenebroso inverno, como a gente poderia dizer assim, né? Romanticamente falando. Mas eu, de cara, faria isso, aqui vai durar eu tenho que ter um uma estratégia de inteligência e sobrevivência emocional. E o que eu escolhi pra mim foi produzir muito conteúdo. Houve um primeiro momento da pandemia que eu só fiz live. Fiz um monte de live. Fazia live todos os dias. Fiz semanas inteiras de programação de live, contando histórias infantis pra criança, fazendo leitura de poema pra melhor idade, live de comédia, live de violão clássico, live de voz e violão. Até que eu falei “Pô, vou usar essas lives. Vou começar a produzir um show novo de comédia sobre a pandemia, sobre isolamento social. E acho que se eu não tivesse com esse pesadelo, de ficar confinado em casa, tendo que encontrar um equilíbrio emocional, eu num tomaria a iniciativa de fazer um show novo, não, porque eu tava muito acomodado. Meu show anterior funcionava muito, pra velocidade de agenda que eu tinha o tipo de público que eu tinha, pras minhas expectativas tava muito bom fazer aquele show. Mas eu senti que devia fazer um novo. E aí foi graças a pandemia que eu resolvi fazer o “Antivírus, o show”. Também foi graças a pandemia que eu tirei do papel, um monte de projetos meus, que eu escrevi conteúdos, fiz PDFs, apresentei propostas de projeto aqui, ali, acolá, tudo que cê puder imaginar, compus música. Nesse sentido, a pandemia foi boa pra mim. Só nesse sentido.”, contou.

Cenário artístico no pós-pandemia

Lives nas redes sociais e Youtube, eventos por chamada de vídeo e shows drive-in foram algumas das alternativas encontradas por muitos artistas e organizações para continuarem trabalhando na pandemia. Embora o impacto das novas maneiras de se comunicar com o público tenham ganhado força durante o período, Rafael Cortez acredita que não mudará a forma de como eram feitas anteriormente.

“Eu realmente não acredito que a herança da pandemia vai ser uma mudança comportamental muito grande no cenário artístico. É uma discussão que a gente tem dentro da classe artística o tempo inteiro. “Ah, e talvez por conta da pandemia, essa área modo de fazer evento virtual, seja uma regra”. Olha, eu faço evento corporativo há muitos anos, na pandemia eu não parei de fazer evento corporativo, eu fiz tudo via live. todos os meus contratantes, todas as agências, todas as empresas fazem o evento virtual suspirando e falando “eu não vejo a hora de voltar a fazer o evento presencial”. Do mesmo modo, todos os comediantes que eu conheço que tão fazendo lives, que fizeram live, que seguem fazendo live aqui, ali, acolá, ou músicos que tocam na internet, etc, suspiram e falam ‘não vejo a hora de voltar a encontrar o público”. E do mesmo modo, o público que tá realizações virtuais, tá sempre suspirando. “Ai, quero se ver no palco ao vivo. Não aguento mais”. São muitos e muitos e muitos anos, décadas e décadas de costumes presenciais. Eles não vão ser mudados por conta de um ano de exceção. Num vão. É muito difícil.”, diz Cortez, que completa dizendo que algumas coisas virão para ficar, como o trabalho em home office e o uso de máscara e álcool gel.

Depois de estrear o show no drive-in e lançar o especial no Youtube, Rafael Cortez já está de olho nas próximas oportunidades e garante que o público poderá esperar muitas novidades no pós-pandemia. Uma das grandes metas é retornar para a televisão aberta, mas em uma posição que utilize do que sabe fazer de melhor, como apresentação, comédia ou música.

“Podem esperar um cara que vai aproveitar todas as oportunidades que forem dadas quando a gente puder voltar a aglomerar. Eu vou fazer show, eu quero estar em palco, eu quero estar num palco cantando pras pessoas, tocando, postando meu lado musical, quero tá num palco, fazendo o meu show de comédia, eu quero fazer um outro show. Agora, não mais sobre a pandemia, obviamente, quero fazer um novo show sobre relacionamentos. Eu, putz, eu vou continuar produzindo muito conteúdo, mas a minha meta é voltar da maneira certa pra TV aberta.”, diz o artista, que confessa ter recusado diversos convites nos últimos anos de programas que não o contemplam profissionalmente. “Tenho recusado muito, muitos convites ao longo desses últimos anos, porque só me chamam pra fazer bolo, pra patinar no gelo, pra fazer dança, pra cozinhar, entendeu? […] O que eu sei fazer é comédia e apresentação, eu sou um apresentador de TV e um comediante. Se me convidarem pra fazer algo assim, eu volto pra TV. Como só tão me convidando pra bater bolo e pra fazer reality, usando mãe, usando, sei lá, uma habilidade que eu vou ter que desenvolver, como dançar ou lutar esgrima eu não volto pra TV nessas condições, entende?”, continua.

Rafael Cortez finaliza ainda que irá retornar para a televisão aberta com um projeto próprio após a pandemia e que o público pode esperar ainda mais conteúdos. “Eu quero voltar e vou voltar pra tv aberta com um projeto meu, isso vai acontecer depois da pandemia, você pode ter certeza. Eu vou continuar produzindo conteúdo e entregando conteúdo pro público que é o que eu amo fazer na minha vida.”, promete.

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