Review: Rubel retorna às origens e reforça maturidade musical em “Beleza. Mas agora a gente faz o que com isso?”
Atenção: este conteúdo foi publicadoUm projeto gostoso para fazer coisas gostosas. Foi assim que apelidei carinhosamente “Beleza. Mas agora a gente faz o que com isso?”, do Rubel, desde que ouvi pela primeira vez na audição no Circo Voador. Um álbum que me levou a tantos lugares e despertou tantas coisas. Desenhei na mente cenários, pensei em pessoas e situações. Tudo isso a partir de músicas que chegaram sem pedir licença.
Esse sentimento atravessa o disco de forma clara. Descrito pelo próprio Rubel como um trabalho visceral, ele chegou a dizer que, ao ver as pessoas ouvindo o projeto, sentia-se como se estivesse nu diante delas — tamanha a exposição emocional que envolve cada faixa. É íntimo, é triste, mas ainda assim amoroso e carinhoso.
O álbum conta com nove faixas: sete composições autorais inéditas, uma versão em português de uma canção do mexicano El David Aguilar, e até uma regravação de Radiohead. As composições são densas, e nem sempre vêm explicadas. Os sentimentos surgem cifrados, metaforizados, por vezes crus. Como páginas de um diário que não necessariamente precisam fazer sentido para todos, mas que, ao serem abertas, provocam algo em quem lê — ou, no caso, ouve.
Rubel retoma a atmosfera do início de sua carreira, com foco em voz e violão, o que aproxima o ouvinte e permite uma experiência quase cinematográfica. Ainda assim, o disco carrega toda a bagagem musical que ele acumulou ao longo dos anos, com arranjos precisos e uma direção artística que equilibra o simples e o sofisticado. A sensação é de reencontro, mas também de continuidade. Rubel mostra que amadureceu, mas não perdeu a essência.
As composições revelam seu talento ao misturar elementos diversos e, ao mesmo tempo, abraçar quem escuta. Se surgir uma cuíca ou uma orquestra inteira, não se espante. Em vários momentos, a sensação é de estar ali, ao lado de Rubel, enquanto ele grava o disco.
A voz de Rubel, mais madura e segura, ganha um papel narrativo ainda mais potente neste disco. É como se ele falasse e cantasse ao mesmo tempo — ou como se precisasse cantar para dizer tudo aquilo que não cabe apenas na fala. Ouvir “Beleza. Mas agora a gente faz o que com isso?” é como passar uma madrugada em silêncio com alguém que você ama, ouvindo o tempo bater na janela e o coração responder em código. Não é um disco para respostas. É um disco para perguntas. E algumas dessas perguntas talvez nos acompanhem por toda a vida.
“Beleza. Mas agora a gente faz o que com isso?” entrou para meu hall de discos que me transportam sem que eu precise sair de casa. Que embalam alguma atividade do dia ou um momento de simplesmente não pensar em nada. E é bonito perceber como a música pode fazer a gente apenas sentir. Rubel conseguiu. E é exatamente isso que importa.












